Hoje eu acordei meio poeta, meio clichê.

Vesti minha meia-calça vermelha, um vestido listrado preto e cinza, meu tênis meio bota marrom e minha mochila xadrez vermelha de sempre.

Me maquiei em uma quantidade menor do que a normal. Botei minhas bijuterias de sempre e tomei o café da manhã de sempre.

Catei minha chave, meu novo fone roxo e meu celular. Fui pra rua com o coque que usei pra tomar banho porque esqueci de soltar o cabelo.

Sai de casa um pouco mais tarde que o normal, atrasada, fui atravessar a rua e pude perceber que quase não havia carros ou ônibus nela. Provavelmente algum problema no trânsito, o que me atrasaria ainda mais. Havia um ônibus parado no ponto, fui andando e me recusei a correr pra pega-lo, ele ia sair no momento em que chegava em sua porta, engoli o orgulho daquela manhã e dei uma pequena corrida enquanto dava alguns tapas no ônibus para o motorista ver que eu existo.

Peguei um ônibus cheio, fui em pé, não havia trânsito, cheguei incrivelmente rápido. Descobri que ir em pé ajuda a despertar mais rápido e que meu novo fone é incrivelmente alto e maravilhoso.

Faculdade, aula de audiovisual, resolvi algumas coisas na rua, procurei alguns vasos de planta, alguns incensos e algumas velas, comprei chá de hortelã em ervas porque não tinha em sachês e rezo para que seja tão bom quanto. Botei dinheiro no bilhete único e peguei o ônibus.

Tinha um bebê incrivelmente fofo na minha frente que toda hora sorria pra mim e me fez esquecer que eu estava enjoada. Parei por um momento pra lembrar se peguei o ônibus que eu devo ir até o ponto final – que é quase ao lado da minha casa – ou o que devo soltar antes, e tinha sido o que me deixa mais longe.

É sempre bom andar, ainda mais na minha rua que é quase deserta e cheia de plantas. Com flores lindas que às vezes não são flores e sim folhas coloridas que parecem flores, mas como são maravilhosas. Catei umas flores pra colocar na minha botinha de vidro que precisa sempre ter uma flor. Licença plantinha.

Que música boa!, olhei para os lados, não há ninguém, dá pra dançar, alguns passinhos.

Cheguei no meu portão preto e o gato da vizinha está lá me dando boas-vindas como sempre. E começa a luta pra achar a chave na bolsa, eu preciso aprender a pegar ela no ônibus, enquanto estou sentada, porque ali, ainda mais hoje com três flores na mão, fica difícil. Achei minhas duas chavinhas lindas pintadas de esmalte com um chaveiro de olho grego, um chaveiro de gato preto com meu nome escrito atrás e um chaveiro com um prendedorzinho que teoricamente eu prenderia em algum lugar na minha bolsa e acharia mais fácil – só falta lembrar de fazer isso.

Abrindo a porta de casa ouço latidos do meu cachorro que, antes mesmo de eu entrar, começa a fazer a festa que me recepciona. Coloco minhas flores na minha bota com água, subo as escadas, guardo minha mochila e tiro meu tênis.

Em casa, finalmente, agora só me resta almoçar, comer o bolo de chocolate que a minha mãe fez ontem e trabalhar.

A menos que a cólica, o frio e o sono me atrapalhem, claro.

Tirei minha meia calça vermelha e meu vestido listrado preto e cinza, os troquei por uma calça cinza com estampa de flores laranja muito confortável e uma blusa preta que me diz que o diálogo constrói. Sem esquecer a meia e o casaco, claro.

Peguei meu laptop, fiz pipoca e fiquei vendo vídeos como se não houvesse amanhã – um amanhã sem responsabilidades, coisas à fazer ou trabalhos com prazo.

Escrevi no meu diário. A última anotação havia sido em 28 de agosto e hoje é 26 de setembro, quase um mês, isso é muito tempo. Aconteceram tantas coisas nesse meio e isso é incrível, engraçado, assustador e maravilhoso.

Fiz toda a minha rotina da noite. Fervi água e com os dedos cruzados fiz meu chá de erva de hortelã.

Fui pra cama. Caneca quente, água gelada, fones de ouvido – dessa vez headphones pretos – e celular. Vejo alguns vídeos, ouço alguns podcasts, bebo o meu chá, medito, bebo minha água e me deito.

Hoje eu vou dormir meio poeta, meio clichê.

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